Objeções Dos Imortalistas

O Estado Do Homem Após A Morte (Parte VI)

I – A RESPOSTA DE JESUS AO MALFEITOR NO CALVÁRIO

Os defensores da doutrina da imortalidade da alma citam o texto de Lucas 23:43 para afirmarem que Cristo, momentos antes de Sua morte, teria prometido ao ladrão penitente que este, no mesmo dia, estaria com Ele no Paraíso.

O texto de Lucas 23:43, nas diversas traduções, diz o seguinte:

a) Na versão revisada da tradução de João Ferreira de Almeida:: “Respondeu-lhe Jesus: Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso.”

b) Na Bíblia de Jerusalém: “Ele respondeu: Em verdade, Eu te digo, hoje estarás comigo no paraíso.”

c) Na “Trinitarian Bible Society”, editada em 1883, em português: “Na verdade te digo hoje, que serás comigo no paraíso.”

d) No “The New Testament”, de George M. Lamsa, traduzido de fontes originais aramaicas: “Jesus lhe disse: Na verdade te digo hoje, estarás comigo no paraíso.”

É muito importante saber que a versão grega original do texto de Lucas 23:43 não possui sinais de pontuação e nem a conjunção subordinativa “que”. Muitos tradutores modernos da Bíblia, influenciados pela doutrina da imortalidade da alma, introduziram os sinais de pontuação segundo suas idéias preestabelecidas. Ficou constatado acima que a simples mudança de colocação de uma “vírgula”, pode alterar fundamentalmente o significado de uma frase. Para se evitar quaisquer equívocos, devemos observar determinados princípios básicos da Palavra de Deus. O nosso Senhor Jesus, logo após a Sua morte, não esteve com o penitente ladrão no paraíso, pelas seguintes razões:

1. As Sagradas Escrituras nos ensinam que os justos receberão o galardão da vida eterna somente por ocasião da segunda vinda de Jesus e não antes. (ver Mateus 16:27; 25:31-34; I Tessalonicenses 4:16 e 17; II Timóteo 4:8; I Pedro 5:4; Apocalipse 22:12; além de inúmeras outras passagens).

2. Quando o nosso Senhor Jesus assegurou ao ladrão penitente um lugar com Ele no paraíso, estava se referindo ao tempo quando a Terra estará restaurada para a eterna habitação dos salvos. O paraíso é o Éden restaurado e ali Deus habitará com os homens (ver Apocalipse 2:7; 21:3). É um evento que se cumprirá no futuro.

3. Uma análise cuidadosa da cena do Calvário revela que o ladrão não morreu naquele mesmo dia em que fizera sua dramática súplica a Jesus, pois a Bíblia diz que “os judeus, pois, para que no Sábado não ficassem os corpos na cruz, visto como era a preparação (pois era grande o dia de Sábado), rogaram a Pilatos que lhes quebrassem as pernas, e que fossem tirados. Foram, pois, os soldados e, na verdade, quebraram as pernas do primeiro, e ao outro que com ele fora crucificado; mas, vindo a Jesus, e vendo-O já morto, não Lhe quebraram as pernas.” João 19:31-33. Se havia necessidade de quebrar as pernas aos dois malfeitores, antes do pôr do sol, é porque eles não haviam morrido ainda. Na pior das hipóteses viveram ainda, pelo menos, um dia a mais que o Mestre. Quando os soldados viram que o Senhor Jesus havia morrido, as Suas pernas não foram quebradas. Como podia o ladrão estar com Jesus no mesmo dia no paraíso, estando Jesus morto e o malfeitor vivo?

4. O conceito de imortalidade da alma é incompatível com o ensinamento bíblico sobre o estado do homem na morte. A Bíblia ensina que os mortos estão inconscientes na sepultura, sem ação mental e em absoluta inatividade (ver Salmos 6:5; 146:3, 4; Eclesiastes 9:5, 6, 10; Isaías 38:18, 19). Nesta condição ficou o nosso Senhor Jesus quando morreu, tendo permanecido três dias e três noites na sepultura. No entanto, “Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, sendo Ele as primícias dos que dormem.” I Coríntios 15:20. Quanto aos demais mortos, eles terão a sua recompensa somente quando Cristo voltar e serão despertados pelo milagre da ressurreição (ver Isaías 26:19; Ezequiel 37:12-14; João 5:28, 29; I Coríntios 15:52; I Tessalonicenses 4:16; II Timóteo 4:1 e outras passagens).

A conclusão é que o texto de Lucas 23:43, quando interpretado corretamente, derruba inquestionavelmente um dos principais pilares em que se ergue a falsa teoria da imortalidade inata do homem e seu imediato galardão pós morte.

II – SAUL E A FEITICEIRA DE ENDOR

O texto de I Samuel 28:7-19 tem sido utilizado pelos defensores da doutrina da imortalidade da alma para legitimar a crença de que é possível a comunicação entre vivos e mortos. Esta narrativa precisa ser analisada à luz da Bíblia em todos os seus detalhes:

1. As razões por que Deus não respondeu a Saul.

A vida de Saul foi marcada por sucessivas práticas de desobediência a Deus. Ele era orgulhoso e irreverente (I Samuel 13); obstinadamente adentrou pelo erro (I Samuel 14); desobediente e mentiroso (I Samuel 15); finalmente entregue ao maligno que aceleraria o seu fim (I Samuel 16:14). A partir daí, foi tomado por ódio, inveja e ciúme. Enfurecido, tentou matar Davi por mais de uma vez (I Samuel 18:9-12, 17; 19:1). Ele próprio declarou-se angustiado: “Deus se tem desviado de mim e não me responde mais...” I Samuel 28:15. Ele sentiu o desamparo de Deus. As condições para Deus ouvir as orações dos que temem verdadeiramente a Ele encontramos em II Crônicas 7:14: “E se o Meu povo, que se chama pelo Meu nome, se humilhar, e orar, e buscar a Minha face, e se desviar dos seus maus caminhos, então Eu ouvirei do Céu, e perdoarei os seus pecados, e sararei a sua terra.” No entanto, o egoísmo, a cobiça, o ciúme e a desobediência endureceram o coração de Saul de forma irreversível.

Como um abismo chama outro abismo (Salmos 42:7), Saul, num último e desesperado gesto de desobediência, resolveu apelar para uma médium espírita na tentativa de falar com o profeta Samuel (I Samuel 28:7), o qual havia morrido e sido sepultado. (I Samuel 28:3). Tal prática, porém, é condenada por Deus na Sua Palavra: “Não se achará no meio de ti quem faça passar pelo fogo o seu filho ou a sua filha, nem adivinhador, nem prognosticador, nem agoureiro, nem feiticeiro, nem encantador, nem necromante, nem mágico, nem quem consulte os mortos; pois todo aquele que faz estas coisas é abominável ao Senhor, ...” Deuteronômio 18:10-12. Outras referências: Levítico 19:31; 20:6 e 27; Êxodo 22:18; Isaías 8:19.

Saul demonstrou ser um hipócrita: mandara eliminar todas as feiticeiras e agora ele próprio vai consultar uma delas (I Samuel 28:3 e 9).

Uma das causas da morte de Saul foi o fato de ele ter consultado a feiticeira de Endor (I Crônicas 10:13).

Aqui surge a primeira evidência da impossibilidade de o profeta Samuel ter se apresentado na sessão espírita. Deus não iria legitimar uma prática condenada por Ele próprio e muito menos atender as petições de um homem de caráter pernicioso, de quem o Espírito de Deus se retirara. O Senhor não respondeu a Saul, nem por sonhos, nem por Urim, nem por profetas (I Samuel 28:6).

2. As incoerências ocorridas durante a sessão espírita

Nada há nesta entrevista que não seja engano, mentira e perversidade. Tudo nesta entrevista está mesclado de falsidade, pois Saul se disfarçou (I Samuel 28:8) e enganou a mulher com sua identidade (I Samuel 28:12). Certamente não é através da mentira ou por um processo chamado de “abominação” que Deus revela a verdade. Com base na afirmação encontrada no texto de I Samuel 28:6, nenhuma comunicação sobrenatural que Saul subsequentemente pudesse receber seria de Deus, mas sim do diabo. Saul sabia disto, por isso ele foi à procura de outra fonte que não a de Deus. “Então disse Saul aos seus servos: Buscai-me uma mulher que tenha o espírito de feiticeira.” I Samuel 28:7. Pela lógica das circunstâncias, essa mulher só poderia ser uma fonte de informações satânicas e coisa alguma na entrevista em questão nos autoriza a tomá-la como verdade de Deus.

Saul e mais dois homens chegaram de noite à casa da médium espírita. Durante aquela sessão espírita aconteceram alguns fatos contraditórios:

a) A feiticeira disse que viu o profeta Samuel (Samuel 28:12); depois disse que viu “um deus subindo de dentro da terra” (v.13); depois, já não era mais um deus e nem Samuel, mas “um ancião envolto numa capa” (v.14). Afinal, o que viu a feiticeira? Com certeza ela não viu o profeta Samuel, pois a Bíblia afirma que os mortos não sabem coisa nenhuma (Eclesiastes 9:5, 6 e 10) e dormem na sepultura até o dia da ressurreição (João 5:28 e 29).

b) O registro bíblico não diz que Saul viu o suposto “profeta Samuel”, pois quando a feiticeira gritou, ele perguntou: “Que é o que vês?” (I Samuel 28:13). E um momento depois: “Como é a sua figura?” (v. 14). Se Samuel tivesse realmente estado ali, por que não o teria visto Saul? Como resultado da descrição dada pela feiticeira, Saul “entendeu” que era Samuel. A verdade é que a mulher, iludida pelo diabo, estava enganando a Saul.

c) O suposto “profeta Samuel”, predizendo a morte de Saul, declarou o seguinte: “E o Senhor entregará também a Israel contigo na mão dos filisteus, e amanhã tu e teus filhos estareis comigo; ...” (I Samuel 28:19). A morte de Saul, no entanto, não ocorreu no tempo determinado pelo suposto “profeta”, mas, somente alguns dias depois (ver I Samuel 29:10-11; 30:1 e 30:17). Além disso, Saul não foi entregue nas mãos dos filisteus; ele culminou com o suicídio o seu procedimento pecaminoso (ver I Samuel 31:4), e seu corpo foi recolhido no campo de batalha pelos moradores de Jabes-Gileade (I Samuel 31:11-13).

Concluímos, pois, que não era o profeta Samuel quem participou daquela sessão espírita. Satanás era o inspirador das atividades da feiticeira.